Tuesday, December 15, 2009

Sonhos de uma noite de verão


A dinâmica da vida é algo impressionante.
Previsivel na sua imprevisibilidade, faz-nos muitas vezes sonhar.
Sonhar é bom! Liberta a criança que há em nós, retira as rédeas (sociais) ao cavalo alado, e deixa voar o pequeno passarinho, que, na comunhão daquilo que é, descobre o verdadeiro significado de ser.
Sonhar é bom! Os sonhos protegem-nos, que nem armaduras, das adversidades, permitindo-nos continuar a viver (e não simplesmente existir).
Sonhar, é deixar fluir e misturar sentimentos, que em turbilhão expressam as cores da nossa alma.
Sonhar, para mim, é como compor, escrever, cantar, tocar, pintar e, principalmente, como amar. É entregar sem medo, é expressão de sentimentos reais, que por inundarem de tal forma o nosso universo, queremos que inundem o de outros. É olharmo-nos ao espelho sem temer o que ver, porque isso simplesmente não interessa.
Sonhar não é bom... É belíssimo.
Sonhar, é algo intrínseco e inegável. Sonhar, é mais importante que respirar. Porque sonhar, é a expressão de algo muito maior e incompreensível. Algo que não está ao alcance da ciência ou do ser racionalizado. Sonhar, é permitir que se abram as portas a um universo de infinitas potencialidades.

Saturday, April 18, 2009

Sou sozinha


Para ti, que sabes quem és...


A caneta jaz junto ao maço de folhas abandonado, completamente em branco. O sol perde-se no horizonte, deixando que a bruma dissipe qualquer rasgo de luz.
Olho pela janela mas não há nada para ver.
Uma lágrima, uma única lágrima, escorre dentro do meu peito (mas nunca cá fora!).
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Tu avisaste-me que partirias...
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Despreocupada, fui ignorando as flores e esquecendo as dores do nosso pequeno mundo.
Vivia o sonho de um futuro que deveria ter sido o nosso!
E tu também...
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Mas, naquela noite, disseste-me que partirias...
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Eu não acreditei e assegurei-te que nunca o farias sem mim.
Por isso, nessa noite, não senti o pânico chegar enquanto me roubavas o luar...

Partiste...
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Durante dias não acreditei e vagueei sem rumo, procurando-te por entre vales sem fim!
Eu tinha jurado que se partisses iria contigo... mas a verdade é que não fui!
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Não me disseste que o barco era de um e que só havia um bilhete de ida. Obrigaste-me a deixar-te ir, levando contigo a parte de mim que não soube como ficar.
Agora, sou sozinha.
Para trás, ficam apenas as pétalas, secas, de um momento que não volta, nem nunca poderia, alguma vez, voltar.

Friday, February 27, 2009

Pinceladas de vida


Nos dias em que chove não ouso sair de casa.
O sol não brilha e com ele desvanece-se, também, o meu brilho.
Torno-me a penumbra que envolve a minha janela.
A chuva que cai lá fora, mas também cá dentro, torva-me a vista. Não há nada que consiga ver, mesmo que quisesse...
Nesses dias, deixo a minha aguarela de lado, e aguardo, encarcerada na minha tempestade privada.
O tempo não pára (quem me dera que parasse...), mas eu páro para o tempo e a minha aguarela pára para mim. Os pincéis estão gastos e carcomidos (quem me dera que não...). Imóveis e inúteis (ao menos se eu tivesse forças...). Renuncio-lhes, enquanto deixo ruirem as paredes da minha casa, a fraqueza sufocar-me, e a vida fluir-me das veias.

Temos medo de arriscar/errar e isso torna-nos fracos. Inutiliza o mais brilhante pensador, que deixa que fechem a sete-chaves as suas potencialidades. O que ele não sabe, é que ele é as sete-chaves.
O mundo exige de nós e nós exigimos do mundo, e é dificil manter o equilibrio entre estas duas necessidades (principalmente porque não depende só de nós). Quando este equilibrio fica demasiadamente desequilibrado, deixamos que a nossa luzinha interior se perca pelo caminho. Ironicamente, quanto maior a luzinha mais facilmente a perdemos. E fazêmo-lo porque não vemos que, muitas vezes, o desequilibrio não é mais que uma ilusão criada por quem nos vende irrealidade por realidade.

Por isso, pega nas chaves, liberta-te e vive (pois ninguém o fára por ti)! Da fraqueza surge a força, da guerra surge a paz, e da escuridão surge a luz. Afasta-te da penumbra da tua janela e repinta a aguarela da vida. Quando o sol se puser, verás que valeu a pena.

Sunday, September 7, 2008

A dualidade do que é uno


O nosso Eu é algo absolutamente maravilhoso, complexo, incompreensível e inexplicável.
O que conhecemos de nós, é como uma mera imagem reflectida num espelho. Está para a nossa verdadeira essencia, como a sombra está para o corpo.
Essa sombra, muitas vezes, não é mais que uma irrealidade, num mundo em que a realidade anda, cada vez mais, de mãos dadas com a ficção. É o irónico preço da aniquilação da criatividade e da procura constante da uniformidade e da padronização. Tornamo-nos todos tão “iguais”, tão “vaquinhas de presépio”, que, vendendo o nosso Eu, a nossa individualidade, à sociedade, misturamos realidades com farsas de tal forma que a irrealidade se materializa e torna-se ainda mais real que a própria realidade.
Do outro, é geralmente apenas essa personalidade, moldada por uma sociedade prepotente e castradora, que vemos. Apenas os mais ousados tentam saltar essa barreira, que na verdade nem se quer faz parte do verdadeiro Eu do outro. Descobrir o outro, faz-nos deparar com os nossos melhores e piores aspectos. Aspectos que muitas vezes não estamos preparados para ver, pois somos incapazes de os aceitar como nossos.
A dualidade do ser humano é, para o mesmo, impensável. Principalmente se essa dualidade se exprimir em comportamentos ou pensamentos que a sociedade, ou o mesmo, classifica como errados. Escolhemos então entrar numa cruzada contra esse nosso lado inaceitável. Numa luta constante e inglória connosco, que não é mais que um virar costas, que um renegar esses aspectos. Mas eles continuam lá, e começam a crescer e a tomar posse do seu duo, do seu oposto, que também existe em nós. E isto cria stresses e problemas sociais que mascaramos por detrás de um véu, que inevitavelmente acabará por não os conseguir suportar.
O caminho não será, então, esse. Começa por apercebermo-nos da nossa dualidade e da presença obrigatória e inegável, em qualquer ser, desses dois lados – o “bom” e o “mau”. Se aceitarmos esta realidade, permitimos que os opostos se fundam, anulem-se e fique apenas o ser, despido de tudo, mas cheio daquilo que realmente é. Apercebemo-nos que o bom e o mau são apenas um ponto de vista e atingimos a paz. Renascemos e estamos finalmente prontos para começar viver.

Friday, August 15, 2008

Olhar com olhos de Ver


Estamos condenados a caminhar infindavelmente por uma estrada que se perde no horizonte. O destino é conhecido, mas não se lhe conhecem as voltas. As estradas, cuja génese se encontra para além da nossa compreensão, estão de tal forma bem feitas que, apesar de individuais, nunca se encontram perfeitamente isoladas. Estão repletas de flores, mas também de pedras, o que torna a caminhada, por vezes, dificil. Tropeçamos e aleijamo-nos, e nessas ocasiões temos vontade de parar de caminhar.
Ora, o segredo está, precisamente, em nunca deixar de o fazer. Aconteça o que acontecer, nunca parar de caminhar.
Parar cega-nos, venda-nos os olhos da alma.
Os olhos da alma são o espelho que nos permite não só olhar, mas essencialmente ver (digo espelho, porque, muitas vezes, é vendo, que nos conseguimos ver a nós mesmos.)
Ver, ao contrário do que possa parecer, não é pacífico. Ver, é um olhar activo, um turbilhão de imagens cujo significado conseguimos apreender. É deixar-se tocar por aquilo para que se olha. Ver, é uma experiência que nos modifica, e que, como tal, nos permite modificar o mundo que nos rodeia. Que nos deixa, que nem mágicos, transformar uma pedra numa flor.
Se estamos cegos, não vemos, e se não o fazemos, a pedra permanecerá pedra, e o nosso corpo ensanguentado e cortado pela mesma.
E nós? Nós, cada vez mais parados, perdemo-nos na imensidão que advém do nada que é a estagnação. Refugiamo-nos no paradigma: “a vida faz de nós quem somos” e deixamo-nos estar, quietinhos, submissos a um futuro que na verdade não era o nosso.
Seria tão mais enriquecedor, se bem que inicialmente mais árduo, nunca pararmos de caminhar... Tão melhor sermos mágicos e senhores do Fado, em vez de seus eternos escravos... E tão belo podermos caminhar não por uma estrada, mas por um caminho de flores, outrora pedras...
Tudo isto, depende apenas de nós.
Depende apenas de nós: deixar que a vida faça de nós quem somos, ou fazer dela uma oportunidade de sermos.

Saturday, August 2, 2008

O último voo


Uma vez pediste-me que te ensinasse a voar. Tentei explicar-te que há já muito tempo tinha decidido não o voltar a fazer, mas tu pareceste não compreender. Choraste, berraste e chamaste-me cobarde e perdedora. Fiquei chocada e antes que me pudesse controlar já te tinha esbofeteado.
Na altura, em desespero, tentei julgar cada palavra tua erroneamente, na esperança de afastar a verdade que indubitavelmente tinham.
Abriste uma ferida que eu tentára ignorar durante muitos anos. Que eu pensára que se fingisse inexistente, sararia por si.
Mas todos as manhãs os meus imaculados lençois apareciam manchados de sangue. Sangue de uma ferida que podia estar oculta mas que era verdadeiramente real. Uma ferida que agora sabia, mais do que nunca, precisar de ser finalmente tratada.
Senta-te um pouco junto a mim. Vamos falar de como é bom voar e de como esse voar nos ensina e faz crescer. De como realmente vale a pena voar bem alto, mesmo que isso signifique uma grande queda. E de como uma grande queda, no fundo, não é mais que uma grande subida. Uma oportunidade única e maravilhosa de nos melhorarmos.
Senta-te aqui, junto a mim. Vamos falar da Vida, dessa grande dádiva.
Depois, quero levantar voo para não mais voltar a pousar.

Sunday, July 6, 2008

A aguarela e a minha janela


Às vezes sento-me à beirinha do parapeito da minha janela, e debruço-me para ver chegar um futuro que sei que nunca será meu. Tremo, vacilo e recuo. Falta-me a força e a coragem para dar o passo em frente.
A minha janela não tem grades e dela consigo ver toda a imensidão de um mundo de infindáveis possibilidades. Por vezes, revejo-me até, nessas mesmas possibilidades. Das mais caricatas às mais romanticas e bonitas, das tristes e profundas às cómicas e divertidas, passando um pouco por todas aquelas que nos roubam a respiração, desesperam e fazem o nosso coração acelerar e ameaçar saltar-nos do peito. Todas elas com um valor único e incalculável para o Homem, que ele quase nunca sabe reconhecer.
Da minha janela também dá para ver o mar e a pradaria, a savana e o deserto, e se olharmos com atenção, ainda se conseguem ver os glaciares da Antárctida. Consigo cheirar e sentir tudo isto mas nunca tocá-los!
Todos os dias, me sento no parapeito da minha janela, e recomeço a pintar a aguarela do dia anterior, que deixei incompleta. As paisagens vão mudando, por si só mas também por mim. Há sempre borrões a remendar, tons a reforçar, novas cores a juntar. À tarde, quando já me sinto cansada e deixo a minha aguarela de lado, olho para ela com carinho. Reconheço nela uma aliada e sorrio, porque sei que aquela tela guarda segredos que o mundo nunca verá. Mas no dia seguinte, quando me volto a sentar na minha janela, vejo nela novos borrões, que certamente se formaram durante a noite, e repinto incansavelmente, com os meus pincéis, já gastos, mas insubstituíveis.
A minha janela é como uma porta para o mundo, mas só de saída.
Da minha janela eu vejo o mundo, mas o mundo raramente me vê.

Assim foi, assim é e assim será.