
Estamos condenados a caminhar infindavelmente por uma estrada que se perde no horizonte. O destino é conhecido, mas não se lhe conhecem as voltas. As estradas, cuja génese se encontra para além da nossa compreensão, estão de tal forma bem feitas que, apesar de individuais, nunca se encontram perfeitamente isoladas. Estão repletas de flores, mas também de pedras, o que torna a caminhada, por vezes, dificil. Tropeçamos e aleijamo-nos, e nessas ocasiões temos vontade de parar de caminhar.
Ora, o segredo está, precisamente, em nunca deixar de o fazer. Aconteça o que acontecer, nunca parar de caminhar.
Parar cega-nos, venda-nos os olhos da alma.
Os olhos da alma são o espelho que nos permite não só olhar, mas essencialmente ver (digo espelho, porque, muitas vezes, é vendo, que nos conseguimos ver a nós mesmos.)
Ver, ao contrário do que possa parecer, não é pacífico. Ver, é um olhar activo, um turbilhão de imagens cujo significado conseguimos apreender. É deixar-se tocar por aquilo para que se olha. Ver, é uma experiência que nos modifica, e que, como tal, nos permite modificar o mundo que nos rodeia. Que nos deixa, que nem mágicos, transformar uma pedra numa flor.
Se estamos cegos, não vemos, e se não o fazemos, a pedra permanecerá pedra, e o nosso corpo ensanguentado e cortado pela mesma.
E nós? Nós, cada vez mais parados, perdemo-nos na imensidão que advém do nada que é a estagnação. Refugiamo-nos no paradigma: “a vida faz de nós quem somos” e deixamo-nos estar, quietinhos, submissos a um futuro que na verdade não era o nosso.
Seria tão mais enriquecedor, se bem que inicialmente mais árduo, nunca pararmos de caminhar... Tão melhor sermos mágicos e senhores do Fado, em vez de seus eternos escravos... E tão belo podermos caminhar não por uma estrada, mas por um caminho de flores, outrora pedras...
Tudo isto, depende apenas de nós.
Tudo isto, depende apenas de nós.
Depende apenas de nós: deixar que a vida faça de nós quem somos, ou fazer dela uma oportunidade de sermos.
