Monday, June 16, 2008

Feelings


Ele estava deitado a seu lado com a cabeça docemente apoiada sobre o seu peito, adormecido num sono tranquilo. As mãos dela demoravam-se nos cabelos do amante, outrora de uma cor que poderia facilmente rivalizar com o sol mas agora brancos como a neve.
Pensava em todos os momentos especiais que tinham partilhado, e em como eles tinham sido importantes na construção do sonho que nunca deixaram de viver. Fora sem dúvida uma mulher de sorte...
Ele caíra do céu para ela, na noite mais fria do ano, e juntos aqueceram os seus corações para sempre. Na primavera, juntos retiraram os espinhos às suas rosas, e adubaram o jardim da sua vida para que este florisse para sempre. Quando o calor apertára, juntos mergulharam na água fresca e benzeram-na com o seu amor, fazendo nascer uma nova vida em cada local por onde passaram. Quando veio o vento, juntos lhe resistiram, tomando-o apenas como uma brisa passageira, rindo e amando-se profundamente. E quando chegaram novamente as trevas, juntos iluminaram o caminho, guiando-se mutuamente, de modo a que nunca tropeçassem.
Agora estavam velhos, não havia como nega-lo, mas a chama do amor deles nunca tinha se quer ameaçado apagar-se...
Ela sentiu movimento, e viu que ele tinha finalmente acordado. Os seus olhares entrecruzaram-se uma última vez. No ar já pairava uma mesga de saudade, mas o amor profundo que nutriam um pelo outro, abafava-a. Ambos sabiam que o fim estava proximo, mas não o temiam.
Com um último suspiro e um último beijo apaixonado ele deixou os braços dela para atravessar a porta que o conduzia à eternidade.
E ela seguiu-o porque o seguiria para qualquer lado e porque sabia que nada os podia separar. Eles ficariam juntos para sempre... Até na morte.


Fevereiro de 2005

Saturday, June 14, 2008

Speranza


Ela estava triste e pensativa. Uma paz excessivamente dormente envolvia-a de tal forma que ameaçava mesmo asfixiá-la. Mas ela parecia nem se quer ter reparado. Pensava, pensava, pensava em tudo o que lhe acontecera.
Por muito que o tentasse negar, e várias vezes o tentára, fora ela que vendára os seus olhos e que voluntariamente caíra, num último acto de martírio pessoal, dentro da alcateia repleta de lobos famintos que a esperavam. A verdade é que ela sabia que durante todo este tempo vivera num engano de alma. Todos os dias continuára a comungar secreta e emocionalmente com o seu mal, alimentando-o na esperança que ele não tivesse força suficiente para se voltar a levantar mas não desejando inteiramente a sua morte. Sim. Era ela que montava o cavalo alado amarelo e era também ela que o guiava em direcção ao abismo, que já se encontrava perigosamente perto.
Mas agora, que se encontrava novamente só, envolta pelo manto negro da sua floresta sem fim, sentia-se perdida na sua intimidade e vacilava, apercebendo-se claramente da forma como ela e apenas ela, sem escrúpulos, cravára o punhal de dois gumes, que forjára, directamente no seu coração. Era ela o inimigo com quem devia lutar e de quem se devia proteger.
E agora uma luz nova e desconhecida movia-se a toda a velocidade, à sua volta. Fosse o que fosse, era algo de novo, e por muito que ela preferisse continuar agarrada à sua boia sem ar gritando por socorro no seu imenso oceano onde nunca permitiria a alguém navegar, tinha uma nova hipotese e um novo caminho a percorrer.
Tinha de escolher, e sabia que esta escolha marcaria um novo rumo na sua vida. E ela escolheu. Escolheu segui-la. Mesmo sabendo que poderia perder tudo o que construíra antes. Mesmo sabendo que esta a poderia fazer cair ainda mais fundo do que já estava...


Janeiro de 2005

Friday, June 13, 2008

Medo do Escuro


Medo. Sentiu as suas mãos tremerem e o coração bater mais depressa.
Espera amarga do inevitável. Até quando?
Sabia que ele andava por aí. Olhos de lobo, ouvidos de morcego, garras de leão. Espreitava a próxima presa. A próxima alma perdida, esquecida. A próxima alma que seria dele.
Encolheu-se. Era uma questão de tempo.
Maldita escuridão. Se pudesse seria sempre dia. À noite, só os escolhidos descansam. Mas ela não. E quanto mais noite, menos vida.
Um grito de horror ecoou pela praça sombria, insignificante, vulgar. Gelou. Mais um sonho abafado. Mas ela não. Até quando?
Avançou. Nada. Apenas o frio da solidão.
Talvez estivesse a andar em circulos. Mas como saber se era tudo um pouco mais do mesmo?
Parou. Porquê continuar? Sabia a sua hora próxima.
Devagarinho endireitou-se para passar por baixo das incertezas e aceitar o seu futuro.
E finalmente sentiu-o. Aproximava-se rapidamente como uma flecha, direito ao novo alvo. Nem se mecheu, a doce infeliz, vítima do inevitável fado.
Já sentia o bafo dele, sedento de vida, quando de repente tudo se desvaneceu. Estremeceu. Alvorada. Bendita seja.
Não fora desta.
Mas até quando?
Vemo-nos na próxima noite.