Sunday, September 7, 2008

A dualidade do que é uno


O nosso Eu é algo absolutamente maravilhoso, complexo, incompreensível e inexplicável.
O que conhecemos de nós, é como uma mera imagem reflectida num espelho. Está para a nossa verdadeira essencia, como a sombra está para o corpo.
Essa sombra, muitas vezes, não é mais que uma irrealidade, num mundo em que a realidade anda, cada vez mais, de mãos dadas com a ficção. É o irónico preço da aniquilação da criatividade e da procura constante da uniformidade e da padronização. Tornamo-nos todos tão “iguais”, tão “vaquinhas de presépio”, que, vendendo o nosso Eu, a nossa individualidade, à sociedade, misturamos realidades com farsas de tal forma que a irrealidade se materializa e torna-se ainda mais real que a própria realidade.
Do outro, é geralmente apenas essa personalidade, moldada por uma sociedade prepotente e castradora, que vemos. Apenas os mais ousados tentam saltar essa barreira, que na verdade nem se quer faz parte do verdadeiro Eu do outro. Descobrir o outro, faz-nos deparar com os nossos melhores e piores aspectos. Aspectos que muitas vezes não estamos preparados para ver, pois somos incapazes de os aceitar como nossos.
A dualidade do ser humano é, para o mesmo, impensável. Principalmente se essa dualidade se exprimir em comportamentos ou pensamentos que a sociedade, ou o mesmo, classifica como errados. Escolhemos então entrar numa cruzada contra esse nosso lado inaceitável. Numa luta constante e inglória connosco, que não é mais que um virar costas, que um renegar esses aspectos. Mas eles continuam lá, e começam a crescer e a tomar posse do seu duo, do seu oposto, que também existe em nós. E isto cria stresses e problemas sociais que mascaramos por detrás de um véu, que inevitavelmente acabará por não os conseguir suportar.
O caminho não será, então, esse. Começa por apercebermo-nos da nossa dualidade e da presença obrigatória e inegável, em qualquer ser, desses dois lados – o “bom” e o “mau”. Se aceitarmos esta realidade, permitimos que os opostos se fundam, anulem-se e fique apenas o ser, despido de tudo, mas cheio daquilo que realmente é. Apercebemo-nos que o bom e o mau são apenas um ponto de vista e atingimos a paz. Renascemos e estamos finalmente prontos para começar viver.